quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Ontem (24/01) sai de casa tendo como destino o município de Itaboraí, a fim de realizar mais uma visita de supervisão, que é parte do meu trabalho. Deveria ser apenas mais um dia em que chego à escola e preencho um questionário com dezenas de bolinhas a serem pintadas com a minha caneta esferográfica. Claro que nunca consegui me manter ou, mais precisamente, me reduzir a uma "preenchedora de bolinhas". Há mais a se fazer para além disso. O campo grita tantas outras questões que aqueles instrumentos não dão conta de atender. Problemas, comentários, sugestões. De alunos, professores, coordenadores, pessoal de apoio, e, por que não, de nós, supervisores. Relatos do dia-dia do ProJovem Urbano, dos seus atores, do que está implicado na execução deste programa, desde os investimentos materiais até os sonhos humanos. Portanto, ontem, dificilmente seria um dia de apenas "pintar bolinhas". Principalmente pela situação presenciada. Causa indignação. É pra qualquer ser menos desumano falar "que absurdo"... Moramos no Rio de Janeiro, onde o calor tem sido intenso, tanto quanto o sol que tem brilhado nos últimos dias. Aliás, lindos dias de céu azul. E quem, diante das altas temperaturas não tem vontade de abandonar as pesadas calças jeans? Quem não deseja vestimentas mais frescas em pleno janeiro no Rio de Janeiro? Pois bem, sendo os jovens alunos do programa tão gente como a gente, também desejam vestir algo mais fresco. E isso se torna bastante relevante e importante quando se considera que alguns deles caminham cerca de 40 minutos, debaixo do sol, para chegar à escola e assistir às aulas. Sim, precisam caminhar porque fica oneroso custear a passagem todos os dias, visto que os Riocards não funcionam nos meses de férias e a bolsa de R$100,00 não caiu para muitos deles nesse mês de janeiro. Não há dúvida de que para essas pessoas vestimentas mais frescas fazem toda a diferença. Ainda mais se considerarmos o fato de que assistirão às aulas em salas quentes, pois há até aquelas em que sequer funciona o ventilador... Apesar disso tudo, mesmo após essa caminhada de 40 minutos, debaixo do sol, no caso de algumas meninas, contrariando o marido para estudar, mesmo que tenham deixado a casa arrumada, a janta pronta, pedindo favor para alguem tomar conta do filho, vi meninas sendo proibidas de entrar na escola!!!! A justificativa? Suas BERMUDAS (3 ou 4 dedos acima do joelho) eram consideradas curtas pela diretora!!!! Sim, cabe a ressalva, trata-se de uma escola MUNICIPAL, um espaço PÚBLICO, que é DIREITO de todos!! Mas, que autoridade tem a diretora para ferir os direitos garantidos constitucionalmente a estes jovens? Direitos estes reforçados na LDB 9394/96? Ela não pode fazer da escola que dirige um espaço com regras à revelia dos direitos dos cidadãos... Não há nada mais paradoxal que umA alunA matriculada em um programa de inclusão ser impedida de entrar numa escola pública municipal. Eram mulheres, negras, morenas, pardas... Pior, não há nada mais angustiante que presenciar alunos implorando para assistir às aulas... implorando para entrar em uma escola que lhe é direito, que é DEVER do ESTADO ASSEGURAR. Em um único dia, 11 alunos foram “barrados” de entrar na escola... No dia da minha visita, a diretora não se encontrava no local, e deixou ordens ao porteiro para impedir a entrada de bermudas acima do joelho...  A corda sempre arrebenta pra o lado mais fraco, né... Afinal, seria bastante fácil para essa senhora dizer que o porteiro pode ter exagerado... Mas ele tava ali, apenas defendendo o seu emprego, cumprindo ordens expressas... A mistura de sentimentos por essa diretora só aumenta a medida que penso nas histórias destes meninos e meninas. Suas vidas não são fáceis. Seus esforços não podem ser desprezados, nem suas esperanças mais uma vez aterradas. Quem disse a ela que está autorizada a constranger e humilhar essas pessoas? Sim, porque isso é uma humilhação. Na verdade, isso é desrespeito. É falta de vontade política. É anti-educação. É tudo isso em um único ato.

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