Ontem (24/01) sai de casa tendo como destino o município de Itaboraí, a fim de realizar mais uma visita de supervisão, que é parte do meu trabalho. Deveria ser apenas mais um dia em que chego à escola e preencho um questionário com dezenas de bolinhas a serem pintadas com a minha caneta esferográfica. Claro que nunca consegui me manter ou, mais precisamente, me reduzir a uma "preenchedora de bolinhas". Há mais a se fazer para além disso. O campo grita tantas outras questões que aqueles instrumentos não dão conta de atender. Problemas, comentários, sugestões. De alunos, professores, coordenadores, pessoal de apoio, e, por que não, de nós, supervisores. Relatos do dia-dia do ProJovem Urbano, dos seus atores, do que está implicado na execução deste programa, desde os investimentos materiais até os sonhos humanos. Portanto, ontem, dificilmente seria um dia de apenas "pintar bolinhas". Principalmente pela situação presenciada. Causa indignação. É pra qualquer ser menos desumano falar "que absurdo"... Moramos no Rio de Janeiro, onde o calor tem sido intenso, tanto quanto o sol que tem brilhado nos últimos dias. Aliás, lindos dias de céu azul. E quem, diante das altas temperaturas não tem vontade de abandonar as pesadas calças jeans? Quem não deseja vestimentas mais frescas em pleno janeiro no Rio de Janeiro? Pois bem, sendo os jovens alunos do programa tão gente como a gente, também desejam vestir algo mais fresco. E isso se torna bastante relevante e importante quando se considera que alguns deles caminham cerca de 40 minutos, debaixo do sol, para chegar à escola e assistir às aulas. Sim, precisam caminhar porque fica oneroso custear a passagem todos os dias, visto que os Riocards não funcionam nos meses de férias e a bolsa de R$100,00 não caiu para muitos deles nesse mês de janeiro. Não há dúvida de que para essas pessoas vestimentas mais frescas fazem toda a diferença. Ainda mais se considerarmos o fato de que assistirão às aulas em salas quentes, pois há até aquelas em que sequer funciona o ventilador... Apesar disso tudo, mesmo após essa caminhada de 40 minutos, debaixo do sol, no caso de algumas meninas, contrariando o marido para estudar, mesmo que tenham deixado a casa arrumada, a janta pronta, pedindo favor para alguem tomar conta do filho, vi meninas sendo proibidas de entrar na escola!!!! A justificativa? Suas BERMUDAS (3 ou 4 dedos acima do joelho) eram consideradas curtas pela diretora!!!! Sim, cabe a ressalva, trata-se de uma escola MUNICIPAL, um espaço PÚBLICO, que é DIREITO de todos!! Mas, que autoridade tem a diretora para ferir os direitos garantidos constitucionalmente a estes jovens? Direitos estes reforçados na LDB 9394/96? Ela não pode fazer da escola que dirige um espaço com regras à revelia dos direitos dos cidadãos... Não há nada mais paradoxal que umA alunA matriculada em um programa de inclusão ser impedida de entrar numa escola pública municipal. Eram mulheres, negras, morenas, pardas... Pior, não há nada mais angustiante que presenciar alunos implorando para assistir às aulas... implorando para entrar em uma escola que lhe é direito, que é DEVER do ESTADO ASSEGURAR. Em um único dia, 11 alunos foram “barrados” de entrar na escola... No dia da minha visita, a diretora não se encontrava no local, e deixou ordens ao porteiro para impedir a entrada de bermudas acima do joelho... A corda sempre arrebenta pra o lado mais fraco, né... Afinal, seria bastante fácil para essa senhora dizer que o porteiro pode ter exagerado... Mas ele tava ali, apenas defendendo o seu emprego, cumprindo ordens expressas... A mistura de sentimentos por essa diretora só aumenta a medida que penso nas histórias destes meninos e meninas. Suas vidas não são fáceis. Seus esforços não podem ser desprezados, nem suas esperanças mais uma vez aterradas. Quem disse a ela que está autorizada a constranger e humilhar essas pessoas? Sim, porque isso é uma humilhação. Na verdade, isso é desrespeito. É falta de vontade política. É anti-educação. É tudo isso em um único ato.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Maturidade (Emilia Casas)
Foi o tempo, meu amigo,
Que me fez assim tão bela...
Deu-me um olhar mais doce
Que o amargo não revela
Lambuzou minhas palavras
Com mel da sabedoria
Nem de mim sou escrava
E "ter" não tem mais valia.
Deu-me um sorriso fácil
Que eu distribuo à toa
Se o velho corpo está frágil
A alma criança voa!!!
Escreveu em minha pele
As histórias que eu vivi
Entre glórias e derrotas.
Eis-me aqui - sobrevivi
E livre de toda a ciência
Que o mundo explica e ativa
Deu-me o tempo, por clemência,
O entendimento da vida.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Cheguei há pouco em casa. Precisamente, há cerca de 20 ou 30 minutos (comecei a escrever esse post 1h) . Chego de um compromisso do trabalho. Trata-se da formatura dos alunos do ProJovem Urbano, do município de Belford Roxo. Sim, me desloquei por este longo percurso para participar desta celebração. Antes de sair de casa, confesso que tive dúvida se me cabia comparecer a tal evento... O calor, a distancia, a ida e a volta pra casa... Confesso que pensei em tudo isso antes de colocar os pezinhos na rua, rumando Belford Roxo. Fui mediocre. Mas, pensei comigo: "Juliana, o que é isso, diante do simbolismo deste dia na vida dessas pessoas? Não minimize essa luta, a perseverança destes meninos e meninas, homens e mulheres, que conseguiram, apesar de tudo, persistir, insistir, seguir." Diante disso, as outras coisas tornavam-se caprichos meus. Portanto, resolvi pegar o transito, derreter no onibus, pegar o trem, outro onibus... De fato, eu não tenho dimensão do que representa esse dia para esses formandos, dos quais muitos possuem filhos, trabalham duramente, e tem em suas trajetorias escolares as marcas da repetencia, do abandono, da desistencia. Meninos e meninas invisíveis que "perambularam" pela escola, tecendo uma relação de amor e ódio, crença e descrença. Ainda bem que eu estava la pra olhar aqueles rostos, e para registrar na "foto da vida", como diz uma amiga, cenas inesqueciveis, que equacionam o dia de hoje. O que significou para aquela mulher, aparentemente de vida dura, subir no palco para pegar seu diploma carregando seus dois pequenos filhos? Eu posso apenas cogitar o simbolismo disso... Uma longa estrada os espera. Tomara que se mantenham fortes para ir adiante e melhorar suas vidas. Eles merecem. E já mostraram que dificil não traduz impossível, e que acreditar é o primeiro passo.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Rio de Janeiro, 02 de Janeiro de 2011.
Findamos mais um ano. O pesado ano de 2010 termina. Ficam as experiências, os aprendizados. Como aprendi sobre a vida esse ano... Sobretudo, aprendi sobre mim mesma, sobre os meus limites. Ano de viagens, desde aquelas em que não precisamos passar pela porta de nossas casas, até àquelas que deixamos o nosso país... Ano de trabalho, intenso, e, em muitas ocasiões, tenso. Ano de estudo, de noites viradas, de paginas escritas, suadas, árduas. Ano de crescimento pessoal, e emocional. Separação, volta para casa, “desamar” – se é que isso existe. Ano de “deixar pra lá”, de virar páginas físicas dos livros, bem como as páginas que tecem a vida. Novos amigos, horizonte ampliado, a chegada de uma nova Pereira a nossa família. Dor e amor. Choro e riso. Apesar de tudo, não tenho o que reclamar, só a agradecer. Afinal, como desqualificar um ano anunciado por um esplêndido pôr do sol?
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| 01º de Janeiro de 2010. Praia da Ferradura - Búzios/RJ |
Que venha 2011! E prefiro sempre dizer: será ainda melhor!
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